


O NARIZ
Saiba vossa excelência – disse Kovalev com
dignidade -, que não sei como interpretar as
suas palavras...Parece-me que o assunto é
absolutamente claro..(...) É que o senhor é
o meu próprio nariz!
“O Nariz”de Gogol provoca simultaneamente
com o riso, uma estranheza que abandona toda
a lógica da razão narrativa. Desloca as
personagens no espaço e no tempo e situa-os
naquilo que logo desde início ele revela
como um facto “extraordinariamente
estranho”, ou seja, um barbeiro que perdera
o apelido, ao acordar dirige-se à sua mulher
Praskovia Ossipovna e pede-lhe pão e cebola
para o pequeno-almoço. Cortado no pão
descobre algo desconcertante: nada mais,
nada menos que...um nariz! “Só o diabo sabe
como é que isso aconteceu!”, justifica
inúmeras vezes ao longo do texto o barbeiro,
Ivan Yakovlevitch, aludindo a uma das
entidades recorrentes na atmosfera
espiritual pré romântica das proximidades do
século XIX: o diabo. Isto tudo é um pouco
antes da criação de “Fausto” por Goethe.
A estrutura do texto, “O Nariz” dirige-se ao
leitor, ora como um possível narrador
oculto, ora naquilo que revela-se através de
um “eu” e que se redime por vezes, pois
sente-se “um tanto culpado por não ter
falado até agora sobre Ivan Yakovlevitch...”
Cria assim fracturas e divagações no tempo
narrativo, ao exemplo de quando interrompe a
trama e justifica que “aqui o acontecimento
fica completamente encoberto por uma névoa e
não se sabe absolutamente nada do que se
passou depois...”
A personagem principal um assessor de
colégio de Cáucaso ou como gostava de ser
nominado, o major Kovalev, acorda e descobre
que seu nariz desapareceu e sai à rua na
tentativa de o encontrar. Descobre-o, -seu
próprio nariz- a passear “num uniforme
bordado em ouro, com uma gola alta, calças
de camurça e uma espada ao lado” O major
conversa indignado com seu imponente e
importante nariz e este nega sequer
conhecê-lo.
Gogol satírico, político e ácido critica um
moral de demónios num estado russo
contaminado pela burocracia. Na sua obra a
criatura mais comum é capaz da atitude mais
diabólica. São assessores, majores,
inspectores ou funcionários públicos que
encarnam os papéis mais grotescos e cruéis.
Gogol retrata uma sociedade extremamente
burocrática, dividida em classes, onde o
dinheiro e o poder têm um papel
preponderante. Kovalev que insiste em ser
tratado por Major, espera ganhar uma maior
importância e relevância social. Encontra-se
em São Petersburgo para ter uma colocação
num cargo que seja equivalente à sua
posição.
Ao perder o nariz, e apesar de se encontrar
de boa saúde, Kovalev deixa de poder
funcionar em sociedade. A forma como o outro
o vê e o olha é algo que o atormenta durante
todos os seus momentos. Assim, é revelado um
mundo que impossibilita a ascensão de um ser
imperfeito e que dá importância ao visual, à
aparência e ao físico.
A disfuncionalidade da sociedade é realçada
quando Kovalev parte em busca do seu nariz.
Ao encontrá-lo disfarçado de Conselheiro de
Estado, fica sem saber o que fazer e como
abordá-lo, uma vez que se encontra numa
posição superior. A postura servil e o
nervosismo imediatamente apoderam Kovalev,
mostram mais uma vez, a importância da
aparência e da estrutura social.
O texto segue surpreendente e divertido até
o inesperado e inusitado final.


SOBRE O CARTAZ E
O REGISTO DOS ENSAIOS EM DESENHO
CEGO COMO UM ACTO PERFORMATIVO
por Júlia Machado
“Se não és
suficientemente hábil para
fazeres um esquisso de um homem
que se atira de uma janela, no
espaço de tempo que ele leva a
cair do 4º andar, nunca poderás
produzir grandes obras” (Delacroix,
1798-1863) A partir desta frase
de Delacroix, foram ensaiados
alguns projectos de
representação do movimento
através do desenho cego no
âmbito de um Mestrado em Desenho
e Técnicas de Impressão na FBAUP.
Encontra-se aqui um território
infinito de actuação, onde a
percepção do movimento é
transferida para o papel como se
de um jogo se tratasse, num
exercício de atenção e devaneio,
próximo do “jazz” do desenho.O
registo dos ensaios de “O Nariz
de Gogol”, em desenho cego, não
deixa de ser um acto
performativo, experiência única
e irrepetível como a
representação teatral.