Um olhar Rebelde para "O NARIZ" de Nikolay Gogol

 

SOBRE “UM OLHAR” E UM OUTRO REGISTO DOS ENSAIOS COMO UM ACTO REBELDE (ALIÁS, A FOTOGRAFÍA) por Jerónimo Lomba 27.02 2011 ENSAIO ABERTO PARA O PÚBLICO - CAFÉ DO TEATRO SÁ DE MIRANDA- VIANA DO CASTELO “Olhar o teatro através da objectiva em contraponto Fotografia de cena”. Ao fotografar teatro, não tenho por objectivo uma captação fiel do que acontece, antes o que me é sugerido em determinados momentos da peça. Interessa-me sobretudo o jogo luz/cor/sombra, no movimento e nas expressões dos actores. Os sentimentos/sensações transmitidos por estas e pelas máscaras/marionetas. Os posicionamentos no espaço cénico e as interacções personagens/objectos, daí resultantes.

 




O NARIZ 
Saiba vossa excelência – disse Kovalev com dignidade -, que não sei como interpretar as suas palavras...Parece-me que o assunto é absolutamente claro..(...) É que o senhor é o meu próprio nariz!

“O Nariz”de Gogol provoca simultaneamente com o riso, uma estranheza que abandona toda a lógica da razão narrativa. Desloca as personagens no espaço e no tempo e situa-os naquilo que logo desde início ele revela como um facto “extraordinariamente estranho”, ou seja, um barbeiro que perdera o apelido, ao acordar dirige-se à sua mulher Praskovia Ossipovna e pede-lhe pão e cebola para o pequeno-almoço. Cortado no pão descobre algo desconcertante: nada mais, nada menos que...um nariz! “Só o diabo sabe como é que isso aconteceu!”, justifica inúmeras vezes ao longo do texto o barbeiro, Ivan Yakovlevitch, aludindo a uma das entidades recorrentes na atmosfera espiritual pré romântica das proximidades do século XIX: o diabo. Isto tudo é um pouco antes da criação de “Fausto” por Goethe.

A estrutura do texto, “O Nariz” dirige-se ao leitor, ora como um possível narrador oculto, ora naquilo que revela-se através de um “eu” e que se redime por vezes, pois sente-se “um tanto culpado por não ter falado até agora sobre Ivan Yakovlevitch...” Cria assim fracturas e divagações no tempo narrativo, ao exemplo de quando interrompe a trama e justifica que “aqui o acontecimento fica completamente encoberto por uma névoa e não se sabe absolutamente nada do que se passou depois...” 
A personagem principal um assessor de colégio de Cáucaso ou como gostava de ser nominado, o major Kovalev, acorda e descobre que seu nariz desapareceu e sai à rua na tentativa de o encontrar. Descobre-o, -seu próprio nariz- a passear “num uniforme bordado em ouro, com uma gola alta, calças de camurça e uma espada ao lado” O major conversa indignado com seu imponente e importante nariz e este nega sequer conhecê-lo.
Gogol satírico, político e ácido critica um moral de demónios num estado russo contaminado pela burocracia. Na sua obra a criatura mais comum é capaz da atitude mais diabólica. São assessores, majores, inspectores ou funcionários públicos que encarnam os papéis mais grotescos e cruéis.


Gogol retrata uma sociedade extremamente burocrática, dividida em classes, onde o dinheiro e o poder têm um papel preponderante. Kovalev que insiste em ser tratado por Major, espera ganhar uma maior importância e relevância social. Encontra-se em São Petersburgo para ter uma colocação num cargo que seja equivalente à sua posição. 

Ao perder o nariz, e apesar de se encontrar de boa saúde, Kovalev deixa de poder funcionar em sociedade. A forma como o outro o vê e o olha é algo que o atormenta durante todos os seus momentos. Assim, é revelado um mundo que impossibilita a ascensão de um ser imperfeito e que dá importância ao visual, à aparência e ao físico.


A disfuncionalidade da sociedade é realçada quando Kovalev parte em busca do seu nariz. Ao encontrá-lo disfarçado de Conselheiro de Estado, fica sem saber o que fazer e como abordá-lo, uma vez que se encontra numa posição superior. A postura servil e o nervosismo imediatamente apoderam Kovalev, mostram mais uma vez, a importância da aparência e da estrutura social.
O texto segue surpreendente e divertido até o inesperado e inusitado final.

 

 

Desenho em Movimento como UM ACTO PERFORMATIVO, no registo do espectáculo "O NARIZ" de Nikolay Gogol

 


 

SOBRE O CARTAZ E O REGISTO DOS ENSAIOS EM DESENHO CEGO COMO UM ACTO PERFORMATIVO por Júlia Machado

“Se não és suficientemente hábil para fazeres um esquisso de um homem que se atira de uma janela, no espaço de tempo que ele leva a cair do 4º andar, nunca poderás produzir grandes obras” (Delacroix, 1798-1863) A partir desta frase de Delacroix, foram ensaiados alguns projectos de representação do movimento através do desenho cego no âmbito de um Mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão na FBAUP. Encontra-se aqui um território infinito de actuação, onde a percepção do movimento é transferida para o papel como se de um jogo se tratasse, num exercício de atenção e devaneio, próximo do “jazz” do desenho.O registo dos ensaios de “O Nariz de Gogol”, em desenho cego, não deixa de ser um acto performativo, experiência única e irrepetível como a representação teatral.